Poemas musicados de Hilda Hilst

De 1996 a 2006, fiz mestrado e doutorado sobre as obras e os manuscritos da poeta, ficcionista, dramaturga e cronista brasileira Hilda Hilst (Jaú, 1930 – Campinas, 2004) na Universidade de São Paulo (USP) e pós-doutorado sobre tradução literária, também sobre Hilda Hilst, na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Por nunca ter encontrado um texto sobre os poemas musicados da escritora (o que não significa que não exista), decidi juntar todas as informações que coletei ao longo da minha trajetória como leitora, pesquisadora e amiga da escritora nascida em Jaú, interior do Estado de São Paulo. Na década de 1950, o cantor e compositor Adoniran Barbosa (Valinhos, 1910 – São Paulo, 1982), renomado por seus sambas “Saudosa maloca” (1951), “Samba do Arnesto” (1953) e, posteriormente, "Tiro ao Álvaro" (1960) e “Trem das onze” (1964), introduziu Hilda Hilst no mundo musical com alguns de seus poemas. Ela era uma jovem universitária do curso de direito no Largo de São Francisco-USP, tendo pouco mais de 20 anos. Adoniran se encantou com um poema da escritora, de seu segundo livro, “Balada de Alzira” (1951): “Bem o quisera”. Adoniran telefona para a poeta e lhe propõe um encontro, que aconteceu, de forma descontraída, no bar do Hotel Jaraguá, na capital paulista, antiga sede do jornal “O Estado de São Paulo”. Neste único encontro, Hilda cria três poemas: “Quanto te achei”, “Só tenho a ti” (música preferida de Matilde, esposa de Adoniran) e “Quando tu passas por mim” – gravados em 1956, com versão de "Quando te achei" gravada na voz de Elza Laranjeira em 1960. É possível encontrar no YouTube e no Spotify essa música. A maior parte dessas informações sobre o encontro de Adoniran e Hilda foram publicadas por Cibele Almeida, incluindo a belíssima canção “Quando te achei”, na voz de Elza Laranjeira1 e por Joaquim Livraria e Sebo.2 Vale a pena ouvir Adoniran Barbosa cantando a capela, numa entrevista, “Só tenho a ti”.3 José Antônio Rezende de Almeida Prado (Santos, 1943 – São Paulo, 2010), primo de Hilda Hilst, compositor e pianista, um dos maiores expoentes da música erudita (dos séculos XX e XXI) no Brasil, futuramente professor na UNICAMP e membro da Academia Brasileira de Música, compôs uma peça para coro e orquestra em 1969, baseada nos poemas hilstianos “Pequenos funerais cantantes ao poeta Carlos Maria de Araújo”, publicados nas antologias “Poesia (1959-1967)” e, posteriormente, em “Poesia (1959-1979)”. Essa obra de Almeida Prado foi premiada em 1969 no I Festival de Música da Guanabara (Teatro Municipal do Rio de Janeiro). Na categoria música erudita (de concerto), o prêmio foi oferecido pela Secretaria de Educação e Cultura da Guanabara. Foram apenas duas edições: 1969 e 1970. Ao conquistar o primeiro lugar na edição de 1969, o jovem compositor Almeida Prado, com 26 anos na época, ganhou uma bolsa de estudos que o levou a Paris, onde foi aluno de Nadia Boulanger e Olivier Messiaen, entre outros grandes mestres. Tive a honra de conversar com Almeida Prado longamente por telefone sobre Hilda Hilst, de um orelhão que ficava no IEL-UNICAMP para o telefone fixo da casa do pianista e, alguns anos depois, o privilégio de assistir a um concerto seu no Conservatório de Tatuí, acompanhada do meu grande e saudoso amigo Jorge Bercht. Em 1978, Gilberto Ambrósio Garcia Mendes (Maputo-Moçambique, 1966 – Santos, 2016) musica as trovas I e XV de “Trovas de muito amor para um amado senhor”, trabalho que foi divulgado em vários Estados do Brasil, na França e na Itália. A trova XV é facilmente encontrada em alguns canais do YouTube. Gilberto Mendes foi compositor, professor universitário e pesquisador ativo no Brasil, tendo publicado vários livros e artigos sobre música. É considerado um dos principais nomes da música contemporânea brasileira de vanguarda. Em 2022 foi lançado o filme "Com meus olhos de cão", uma mistura de elementos documentários da vida e obra do compositor erudito Gilberto Mendes com elementos ficcionais da obra em prosa “Com meus olhos de cão” de Hilda Hilst. A direção é assinada por Thaís de Almeida Prado e o roteiro por Thaís de Almeida Prado e Gilberto Mendes. O filme, com duração de 45 minutos, conta com o trabalho dos atores Márcio Barreto, Nathalia Lorda e Gilberto Mendes.4 Em 2006, terminei meu pós-doutorado com duração de dois anos. Nesse período, vinculada ao IFCH-UNICAMP e com supervisão do professor Jorge Coli, traduzi 120 poemas de Hilda Hilst ao francês e 70 ao espanhol. As revisões das traduções foram realizadas por Espérance Aniesa, amiga francesa de origem espanhola, poeta e professora de espanhol. Trabalhamos exaustivamente durante três meses, numa cidade da região Champagne-Ardenne, na França, para fazer as melhores escolhas tradutórias no final do meu pós-doutorado. Nesse período, vivi gentilmente na casa dos pais e vizinhos da Espérance, Lolita e Zébio. Tempos depois, fui procurada pelo pianista Sérgio Nicásio, de Belo Horizonte-MG. Ele tinha o desejo de musicar poemas da Hilda em francês, o que ele fez. Entreguei todo o material traduzido no pós-doutorado para ele escolher o que desejasse. Apresentou-se algumas vezes. Não tenho registro de quantos poemas foram – certamente menos de cinco - nem dos locais das apresentações. Mas certa vez, ele e sua namorada me convidaram para ouvir o resultado: ele tocou piano e cantou Hilda Hilst em francês para nós duas em seu apartamento. Foi divino! Dividi camarim com Zeca Baleiro quando lançou o CD “Ode descontínua e remota para flauta e oboé de Ariana para Dionísio”, com 10 músicas cujas letras são poemas de Hilda Hilst. Ganhei um exemplar autografado pelo músico e compositor. O lançamento foi no SESC–Pompeia, na capital paulista, em 4 de maio de 2006. Na ocasião, antes do lançamento, houve a palestra “Vida e obra de Hilda Hilst”, ministrada por mim. Os poemas musicados por Zeca Baleiro fazem parte do livro “Júbilo, memória, noviciado da paixão” de Hilda Hilst: as músicas são cantadas por dez mulheres de renome da música brasileira e são facilmente encontradas no YouTube e no Spotify. Cantam no CD, nesta ordem, as Canções de I a X: Rita Ribeiro, Verônica Sabino, Maria Bethânia, Jussara Silveira, Angela Ro Ro, Ná Ozzeti, Zélia Duncan, Olivia Byington, Mônica Salmaso e Angela Maria. Lançado pelo Selo SESC, o CD “Puertas”, com a soprano Adélia Issa e com Edelton Gloeden no violão, três poemas de Hilda Hilst, do livro “Cantares do sem nome e de partidas”, fecham essa obra, todos musicados por Antonio Ribeiro em 1971: “Cantares de Hilda (Hilda Hilst) – I. Que este amor não me cegue nem me siga; II. Rios de rumor; III. Ilharga, osso”. No encarte do CD, a escritora é apresentada: “Hilda Hilst é considerada pela crítica especializada uma das mais importantes escritoras brasileiras da segunda metade do século XX. Sua imensa cultura e sua liberdade criativa faz com que seja vista como um expoente da pós-modernidade, uma vez que sua obra poética deixa entrever, em sua construção, apropriações de fórmulas literárias de diferentes épocas.” Para visualizar o vídeo "Quando te achei" na voz de Elza Laranjeira: https://youtu.be/yXRjMZTvYoc?si=CMwU_K1G7cD3cCcv Para ouvir "Quando te achei" na voz de Cida Moreira: https://youtu.be/1Tuev65wohM?si=1WCm9xEDsKQrg4WA 1. < https://www.youtube.com/watch?si=CDx8ggK_jvzzJ67v&v=bAiW_FsmCWU&feature=youtu.be> 2. 3. < https://br.video.search.yahoo.com/search/video?fr=mcafee&p=so+tenho+a+ti+adoniran&type=E210BR91199G0#id=1&vid=f493a590f2775c2a122930fa10011ddb&action=view> 4. < https://www.imdb.com/pt/title/tt9736974/> Cristiane Grando - e-books com poesia e fotografia: https://ornitorrincobala.com/cristiane-grando/

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Livro sobre Hilda Hilst e muito mais...